S. MARTINHO, 1967

Qual maratona, qual trail, qual quê?! Se alguma vez fomos postos à prova, isso aconteceu no dia em que nascemos. Mergulhados em líquido aconchegante, airbag de primeiríssima qualidade, num tempo em que puericultura era um palavrão perdido no final de um velho dicionário, todos colocámos algum entrave quanto a fazer-nos à pista, em particular se tal acontecia em dias frios, com a geada a querer congelar as poças de água suja que inundavam os velhos caminhos.

Não sei se foi por isso, mas sempre ouvi dizer que a Ti Alexandrina, por muita técnica que dominasse, foi incapaz de me convencer a vir cá para fora. A dada altura, a conclusão estava à vista e a velha parteira não hesitou, porque adiar era sinónimo de arriscar.

– O melhor é chamar-se o médico, ainda que a estas horas…

Houve um rumor por toda a casa. Ora, como se havia de se chamar o Dr. Ribeiro àquela hora e garantir a vinda dele com urgência?

– Só se for o Zé Lopes, que comprou uma mota, se ele fizesse esse favor… – atirou o meu avô Vicente.

Pouco depois, ofegante, no meio do Casal, candeeiro metálico a petróleo a baloiçar da mão direita, já se ouvia a voz grossa do meu avô a chamar pelo Compadre Zé Lopes. A seguir, escutou-se uma conversa de frases curtas, entre homens que não estavam para converseta, mas que demandavam uma solução. A mota, de cromados luzidios espreitava debaixo do barracão e os homens, por um instante, chegaram a pensar que ela estaria, atenta, a escutar-lhes as palavras.

– Ora essa, vou-me já vestir, mas, Compadre, há cá uma coisa…

Nem tinham passado cinco minutos e já a mota, à mão, saía do lugar onde era guardada ainda nem há uma semana.

– Ó Compadre, é que, lembrei-me agora, há uma complicação… – enquanto José Lopes dizia isto e o meu avô facultava a luz do candeeiro, uma pedalada deu vida ao motor da motocicleta.

– Desembucha, homem!

– Comprei a mota na semana passada, mas só andei nela de dia e… não sei acender a luz!

Mas, depois de mexer e remexer nuns quantos interruptores, eis que um foco luminoso irradiou pela estrada semeada de poças de água e homem e mota, numa marcha lenta mas determinada, partiram para o Sardoal.

Ainda foi necessário esperar um bom bocado, até se ouvir motores que ronronavam entre olivais, a descer das Sete Sobreiras. A cadela do meu avô, pouco habituada a tanta manobra, curiosa, pôs-se a espreitar para as luzes e, zás, ficou debaixo do carro do médico. Para as perdizes era do melhor, sempre ouvi dizer ao meu avô Vicente.

Pouco depois, o Dr. Ribeiro, com a ajuda da Ti Alexandrina, lá me convenceu a fazer-me à vida. Porém, porque eu, envergonhado, não queria chorar, o velho clínico deu-me duas valentes palmadas e exclamou uma das frases que mais apreciava: “Temos homem!”

A minha avó tinha comprado, na Feira da Fossa, dois quilos de castanhas e, assim que as coisas se começaram a resolver, pô-las a assar. O sol espreitava do lado da Cabecinha, num Verão de S. Martinho à antiga, todos se acercaram da mesa e comeram as castanhas apetitosas, acompanhadas de água-pé da nova safra. Reinava um silêncio, de mistura com um brilho de alegria nos olhos de todos, ainda que ao meu avô, lá por dentro, roesse aquilo da cadelita.

JMG

zemartinho25.10.1968

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BOLINHOS, BOLINHOS… MEMÓRIAS DOS SANTINHOS…

213.Coco_Ranheta

Água das Casas, onde o Ribatejo deixa de ser e as Beiras começam, anos 70 do século passado. Trinta ou quarenta pirralhos, eu incluído, ouvida a missa de enfiada, que as guloseimas é que fazem valer o dia, já se reúnem no Casal, junto à pia dos burros,  e definem atalhos. Está nevoeiro e as mãos arreganham, mas hoje ninguém se lembra disso. Os maiores seguram  sacos e bolsas de trapos, feitas pelas avós, que eles só trazem para a rua uma vez por ano. Os pequenos, ainda com bigodes do café, dão as mãos aos irmãos mais velhos, que os puxam, de má vontade, porque lhes atrasam a passada.

– Bolinhos, bolinhos, à porta dos santinhos! – Já cantam todos, a espreitar para a oferta.

Aqui são broas, é para a taleiga branca, de pano cru, ali tremoços, criados na Esteveira e adoçados no Rabaçal, uma mão bem cheia, que é produto de pouco valor. Já os provam e alguns nem as cascas escolhem, outros, mais fidalgos, dizem-nos salgados.

– Olha, a Ti Francelina dá um pacote de bolacha baunilha. Pra’qui é pra três, pra mim e p`ros meus irmãos!

– A Ti Maria dá passas. Não vou lá, quem é que quer passas? Figos secos embolados em farinha tenho eu lá muitos…

– Ó rapazinho – diz o viúvo gasto pelos anos e pela solidão – tu já não tens idade, se no ano que vem cá apareces de novo dou-te é uma corda para ires ao mato – e distribui uma moeda grossa de 50 centavos a cada um.

–  Caraças, papo-secos e tremoços… se alguém desse umas bolachas… olha a sorte, antes tarde que nunca, uma mão cheia de rebuçados, que a Ti Celeste trouxe de Lisboa. Agora vou-me regalar!

Ao fundo, os homens circulam entre as adegas, bem dispostos, a provar a água pé nova. É dia santo, tempo de esquecer canseiras e dificuldades e de adoçar a boca.

– Bolinhos, bolinhos em louvor dos seus santinhos! Ali peço para quatro, que estão a dar `chicolates´…

JMG

 

 

LICEU, A ESCOLA QUE SOAVA BEM [OU PILARES DE AGARRAR UNS E PISCINA DE AFOGAR OUTROS]

PILARES

Por que motivo ingressei eu, no começo dos anos 80, no Liceu de Abrantes em vez de ir para a Escola? Por nenhuma razão verdadeiramente atendível ou racional, porque Liceu me soava melhor, porque conhecia lá dois ou três e, há que reconhecê-lo, ninguém nos dava razões válidas para coisa nenhuma. Era tempo de ser, isso sabíamo-lo, era a nossa vez, de tal não duvidávamos, mas quanto ao caminho por onde seguir, tudo se fazia por fezada e nem o célebre Spock tinha GPS no Caminho das Estrelas.

Sair de casa às sete da manhã para entrar nas aulas às nove, calcorrear na carreira do Maxial estradas de terra batida para chegar à Garagem dos Claras (que, afinal, já não era dos Claras) quase às nove. A seguir, o percurso fazia-se a pé, do centro da cidade até ao Liceu, por um carreiro que torneava oliveiras e que, assim que chovia, ficava enlameado a ponto de não permitir a passagem. Quem chegava de uma escola pequena, como eu vim do Sardoal, entrava por aqueles portões largos numa praça da maratona cosmopolita. Eu já o pressentia mas não podia ter ainda a certeza disso. Múltiplos e desvairados miúdos, alguns já graúdos, entravam envoltos de multidão numa escola que, afinal, tinha um nome de quartel, era a Secundária número dois.

Lá dentro, nos corredores intermináveis, nas escadas inusitadas, ao longo da fileira de pilares que desenhavam um pátio da fama, juntavam-se grupos, clãs, vizinhos, famílias, rivais. As bocas, os gritos, os piropos, os andares bamboleantes vinham ao de cima entre dois toques de campainha guinchados. Ao segundo toque ainda persistiam alguns, por ali, recostados… vários ainda tentariam arranjar uma desculpa pelo atraso, outros pura e simplesmente não iam. Degustavam o Liceu num qualquer recanto e, ainda hoje, têm saudades disso. O Liceu era uma cidade, com os seus espaços centrais, pátios de glória, semeados de queques e meninos bem, mas também com guetos de pegachos, malta de S. Facundo e Vale das Mós e subúrbios com rapaziada como eu, proveniente de aldeias pequenas e longínquas. A globalização já começara, mas não o sabíamos e, por isso, a forma como se vestiam os rurais era ainda diferente. Entretanto, chegaram as Galerias Rulys e com esforço comprava-se uns Le Coq Sportif e, sem darmos por isso, o mundo fez-se mais pequeno. Ao fim da tarde, passeado o acne pelo muro da vergonha, metíamo-nos na carreira e fazíamos o caminho de regresso. Abrantes esmorecia, caía num marasmo. Não éramos da cidade, não nos víamos assim, nem nos consideravam como tal. Sei-o hoje, a tal Abrantes que ainda paira em tantas cabeças era feita também por nós, os que já seguiam pelas estradas de terra, talvez em Martinchel, o palco dourado de Michèle Mouton e de Ari Vatanen, um finlandês voador.

Passei para o 11º e soube, quase por acaso, que reabria a residência para estudantes. Troquei as viagens na carreira por essa vida mais calma, mais descansada, mais… Havia mais tempo para estudar, mas sobretudo para estar com os amigos e para namorar. Agora eu, cabelos pelos ombros, numa rebeldia estudada, tinha feito amigos, fui-os inventando por ali, naqueles corredores que nos levavam da sala 1 à 52 (a 53 era outra coisa), e entre pilares, mas também junto à piscina. O Liceu desse tempo vivia entre pilares a que tanta gente se agarrou e uma piscina vazia, para nadar em seco ou para afogar mágoas. Namorava nas escadas de acesso aos campos, onde, de quando em vez, aparecia uma contínua chata que nos obrigava a procurar novas paragens.

O meu pai nunca tinha vindo ao Liceu, até que foi chamado no final do meu 11º ano. Ele ficou atrapalhado e eu um pouco assustado. Na secretaria disseram-lhe que eu tinha tido a melhor média entre os alunos das áreas C e D e, por isso, era o elemento a indicar pela escola para um concurso nacional a um cruzeiro no Mediterrâneo. Não fui o vencedor, mas aquela novidade de que entre cento e tal alunos eu tinha sido o primeiro fez-me ter a certeza.

Naquele tempo a escola explicava-nos coisas na sala de aula, mas fora dela deixava-nos muito ignorantes, a informação escasseava. Senti isto especialmente no acesso ao ensino superior, na importância dos exames, na forma de definir médias. Saí em 86, ano em que já desesperávamos por um Sporting campeão… mal sabia eu que quando voltássemos ao título eu já seria professor naquela escola, com alguns anos de serviço. Lembro-me bem do dia em que voltei à minha aldeia, findo o 12º, saco às costas, t-shirt branca, cabelos ao vento e confiança nos bolsos. Não o sabia, mas naquele momento, três anos depois, eu não era o mesmo. O tempo que veio a seguir foi ainda de muitas contrariedades, mas quando se faz por isso os obstáculos desviam-se-nos do caminho.

O Liceu está a festejar o seu cinquentenário e, curiosamente, também eu farei cinquenta anos por estes dias. Em 1983, optei pelo Liceu porque soava bem. Hoje, tenho a certeza que, sem o saber, fiz uma excelente escolha!

JMG

DOCES PREGÕES

Lá vêm eles de novo, carros abonecados, bandeiras a adejar ao ritmo do vento e da deslocação dos veículos, e a música a ecoar, melodias festivaleiras a saltar de altifalantes brancos colocados estrategicamente. Ah, mas estes são outros, de outras cores e cantilenas, já ontem e anteontem por cá passaram comitivas diferentes. Ainda alimento a esperança… Saltam dos carros, sorridentes, como se tivessem saído do dentista, a querer mostrar a dentadura alinhada a toque de aparelhos aramados, aproximam-se da gente, estendem-nos os braços e atracam-nos num aperto rápido, que o tempo é pouco e a gente é muita. Um abraço é sempre um afago, essa é que é essa, apesar de fugaz justifica que ponderemos. Ainda esperamos que nos digam algo, uma justificação, uma frase estudada, mas nada… essa função pertence ao líder que vem mais atrás, ao telemóvel, a esbracejar e a sorrir, a não ter tempo para a gente. Agora já chegaram as meninas das saias curtas, de cores claras como a restante matilha, trazem autocolantes que nos colam à pressa e, ao mesmo tempo, entregam-nos uma caneta com a cruzinha desenhada na quadrícula, como quando jogamos no euromilhões. Se a gente adivinhasse os números seria de outro jeito, se o candidato adivinhasse o que nos vai na alma seria outro o seu ‘slogan’, mas não… fica-se por aquele “Junto das Pessoas” escarrapachado em bandeiras, em faixas e nos carros brancos. E já segue, a fugir da gente, pela estrada esburacada. Esqueceram-se de entregar o chispe!

Já ontem foi mais ou menos assim, mas o candidato vinha na dianteira, a perguntar se não sabíamos quem ele era… a gente a sorrir, para não dizer que não, porque parecia mal desiludir um homem daqueles, bem parecido, simpático e tão dado. Mais a mais, trazia uma cesta com chouriços embalados em vácuo, estendia um a cada um de nós e a gente, numa vénia, agradecia. Fiquei decidido, era coisa fina, de origem nacional e com este, por muito mal que as coisas corressem, não faltaria uma bucha ao fim da tarde. Um rapaz de voz forte enchia o ar com quadras, a prometer coisas e no final atirava aquele ‘slogan’ que me desanimou: “Trabalho para Todos”. Ora essa, o trabalho que me dava não fazer nada e este a prometer-me ocupação. Saí de mansinho, não eram aqueles que me levavam à certa!

Já anteontem por aqui tinham aparecido os outros, vestidos de negro, faixas escuras, como se estivessem de luto. A música era triste e houve alguém que ainda pôs a hipótese de que o velho regedor tivesse morrido e que aquela fosse a comitiva da funerária, dessas modernas que servem gins e rissóis. Só por isso os velórios têm tanta gente. Mas não, abrira a campanha! A conversa era a do costume e, num impasse, em frente à tasca do Marcolino, não ligando a malta ao que diziam, mandaram vir minis para todos, minis e copos de três, que há quem seja alérgico a cereais. Como alguns não bebem sem uma talisca, e diante de tal declaração pública, foram-se à venda da Aurora e compraram-lhe umas quantas morcelas, que, acompanhadas de pão alvo, dispuseram pelas mesas, cortadas em rodelas finas. Quando estava tudo bem comido e melhor bebido, foram-se às propostas. Disseram que fariam assim e assado, ocorreu-nos a morcela, e remataram com um ‘slogan’ em que acreditavam piamente: “Regressar às Origens”. Um a um, os presentes começaram a levantar-se e viraram costas àquela rapaziada que, há que reconhecê-lo, parecia simpática. Mas, vindo a gente de onde vem, quem é que pode querer regressar às origens?! Também destrocei, não sem antes guardar uma morcela no bolso das calças.

Ora bolas, e eu a contar com o chispe… depois disto não se faz o cozido à portuguesa!

JMG

DocesPregoes22.9.17

BOMBEIROS VOLUNTÁRIOS DE ÁGUA DAS CASAS

O que nós gostávamos do pinhal, mesmo que não o soubéssemos nessa altura! O cheiro da resina, bem como os múltiplos odores das ervas e urzes entranhava-se-nos nas narinas, apaixonámo-nos por aquilo, até pelos poucos eucaliptos capazes de desentupir vias respiratórias afetadas por constipações. Este era o lado bom, para onde a memória pende, mas o pinhal era duro: acarretar pinhas e lenha para as fogueiras de aquecer e cozinhar, mato para deitar os animais e também caruma para espalhar sobre as terras de regadio.

Naquele tempo não havia incêndios, às vezes uma ou outra fogueira fruto de um descuido, que cedo se apagava, sem recurso a sirenes e a água. Bastava meia dúzia de homens e mulheres munidos de enxadas. Os serradores dos Pedrógãos (é, ironicamente, a alcunha desta família de madeireiros) deixaram escapar, talvez no fim dos anos 70, a fogueira com que assavam a sardinha do almoço. A tarde seguia quentíssima, o sítio era tramado, do lado de lá da albufeira, mas sete ou oito barcos a remos, gente com vontade e, uma hora depois, já se fazia o rescaldo. Tinha sido uma fogueira grande, cada um poderia ter levado meia dúzia de sardinhas para assar, mas naquele tempo cada indivíduo só tinha direito a uma. Eram tempos bons, já lá ia a época de uma sardinha para três!

Seis sardinhas era número a que cada um já tinha direito na segunda metade dos anos 80. E, sem se apresentarem, começaram a surgir queimadas, era assim que os mais velhos identificavam a coisa, capazes de devastar concelhos inteiros, como aconteceu ao de Vila de Rei. Lembro-me como se tivesse sido esta manhã: levantara-me cedo, era dia de arrancar batatas e convinha ir pela fresca, e o monstro  apareceu do lado de lá da albufeira, munido do vento e de um som cavo capazes de tudo engolir. Ainda tentou agarrar-se à nossa margem, mas não lhe demos hipóteses!

Tratores e motocultivadores haviam substituído burros, machos e outros animais mansos e, com este equipamento, criámos a nossa corporação de bombeiros. Nas férias escolares, de final dos anos 80, início da década de 90, o Abílio Moura era o nosso comandante. O Abílio mantinha sempre o reboque do trator com dois bidões de água, cada qual tinha a sua enxada à mão e, quando alguém gritava “fogo” fazíamo-nos à estrada e apagámos vários incêndios antes da chegada dos bombeiros a sério, não só na nossa aldeia, mas também nas vizinhas, onde os locais não saíam do café, alegando que os bombeiros de Água das Casas tratariam do assunto. Por isso e porque em 1995 morreram três homens bons a tentar apagar um fogo em S. Domingos, incluindo o Ti João Galucho, que conduzia a carreira que tantas vezes nos levara à escola, direcionámos a nossa ação apenas para os nossos fogos. Nesse tempo, havia tipos que se gabavam de comer um quarteirão de sardinhas!

A malta da aldeia dizia “um dia o lume cai ali, no Vale, e a gente não consegue fazer nada”. Não foi bem assim, mas foi quase, e o Ti Abílio Dias Alves (quando quiserem um bom comandante para a Proteção Civil, escolham um tipo chamado Abílio) decidiu pensar um sistema de proteção contra incêndios, que lá continua, que custou uma ninharia, que andou pelos ecrãs de televisão, mas que, pelo que sei, não foi replicado onde quer que seja! Por esses dias, os que se gabavam de papar 30 sardinhas começavam a ter dificuldades em comprá-las, pois este peixe do povo começou a ser vendido a preços incríveis!

Na semana passada, na Zona do Pinhal, aconteceu o que se sabe e o que está ainda por explicar. O que pode suceder a qualquer momento deixa-nos com um nó na garganta difícil de desatar. Este ano, ao que me é dado saber, quase não há sardinhas, contam que os recursos marinhos escasseiam de tal maneira que vamos a uma sardinhada e deparamos com uns peixes de grandes dimensões, comercializados congelados, e a gente duvida se aquilo são mesmo sardinhas. Tudo isto traz-me algo nervoso! Seria tudo tão mais fácil e eu teria outra confiança se, quando alguém gritar “fogo”, se ouvisse o som característico do trator do Abílio, com a aceleração no máximo…

JMG

Incendio

MOMENTOS

Quando se é pequeno as férias são grandes, ou melhor, são do tamanho de um ou vários mundos e têm dentro delas rapazes em tronco nu, com a pele bronzeada, e raparigas de sorriso aberto e inocência no olhar. Quando se é grande as férias são pequenas, escapam por entre os dedos, jogam connosco às escondidas e nós passamos os dias a querer segurar o tempo, como quem corre em redor de uma mesa a intentar agarrar as costas.

Quando se anda de motorizada, seja nos inenarráveis anos oitenta ou no imponderado século XXI, acelerar não é senão fugir de si e do mundo, com a cabeça disfarçada no interior de um capacete de bloquear traumatismos, o vento doce a simular carícias na face e a quase certeza de que viver é tão somente enrolar o punho e deixar-se ir. Quando se anda de carro – e o tempo não é para aqui chamado – quer-se mostrar ao mundo um espelho de felicidade, ainda que tudo nos ignore, bestas sentadas, a resistir, a evitar a reserva que pode conduzir à imobilidade, à dor de parar para todo o sempre.

Quando se pensa que se ama a sério, saltam flores de todos os poros, as quais inibem os sentidos,  pelo que se deixa de ver, de ouvir, de saborear e, mesmo parecendo mera figura de estilo, cessa-se inclusive de sentir. Quando não se ama e se quer fazer parecer que sim, carrega-se o mundo às costas, embrulhado em papel pardo, e por muito açúcar mascavado que se lhe junte, há de parecer sempre sensaborão.

Quando se trabalha com gosto, sem dar por isso, levanta-se o martelo bem alto, dois palmos acima da cabeça negra, e desferem-se golpes sucessivos sobre a bigorna, que se queixa, num estertor gritado, como se quisessem matá-la. Quando se está ali a fazer de conta, a fingir que se trabalha, carrega-se devagar no botão antigo do “play” e debitam-se peças metálicas por todos os poros, vomitam-se excrescências conjunturais, que não conseguem tornar inteligível a pauta diacrónica da sucessão das jornadas funcionais.

Quando se tem saúde, há, nos tempos primordiais, repletos de imortalidade, uma força invulgar para ignorar o mundo dos que se queixam, dos que sucumbem; nos tempos segundos, arreganha-se um despertar mórbido, marca de estupefacção pelos que soçobram ainda imberbes e revela-se um certo pôr-se a adivinhar, um querer saber quando chegará a nossa vez. Quando se está doente há, nos dias primeiros, uma raiva feita de perguntas irrespondíveis, de quem se sente vítima de um conluio; já na amálgama das eras finais, apresenta-se publicamente uma crença diabólica, uma negaça de armar ao fim, ainda a procurar apanhá-lo desprevenido.

JMG

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CARREGADORES DE PALAVRAS

Seguiam carregados, no parque quadrado, quem os visse identificá-los-ia como estivadores, porém um olhar mais atento, um estudo dos seus trajetos, faria instalar a dúvida. Alguns seguiam muito direitos, andar ligeiro, e numa grande canastra acomodavam palavras leves, para entregarem por aí: brisa… papel… dieta… seda… cortiça… esferovite… um certo beijo… carícia… sardinha, porque quem distribui palavras leves precisa de fazer algum dinheiro. Afinal, ninguém vive do ar!

Também se vislumbravam alguns que pareciam corcundas, era tal o peso das palavras que levavam consigo que só com muito esforço conseguiam deslocar-se. Aproximavam-se dos transeuntes, mas estes, assim que os pressentiam, algo assustados, evitavam-nos, viravam costas, fugiam ou fingiam não os ver. Pedra… solidão… ferro… insónia… pesticida… sujidade… um certo beijo… murro… osso duro de roer, eram estas algumas das palavras que levavam consigo. Também carregavam, às escondidas, drogas, necessariamente pesadas. Afinal, ninguém vive do ar!

Saltitavam, alegres, alguns bonacheirões, os carregadores das palavras doces. Numa caixinha de papel manteiga, muito arrumadas seguiam natas… mel… borboletas… água (de um rio limpo)… deslizares… risos… um certo beijo… bolas de berlim, para serem apregoadas em praias salgadas e apinhadas. Afinal, ninguém vive do ar!

As palavras afiadas espetavam-se nas pessoas e nas coisas, pelo que os seus carregadores pouco ou nada avançavam. Precisavam de levar, na dianteira e atrás, sinalização de transporte de características inusitadas. Fechava-se o trânsito e os semáforos permaneciam intermitentes horas a fio. Apenas discerni algumas, no amontoado: tesoura… agulha… garra… língua… vidro… lança… raio… arame… frio… unha… exigência… triângulo isósceles… um certo beijo… Já se sabe que ninguém vive do ar, pelo que estes carregadores vendiam pedaços de espelhos, que tinham muita procura, pois serviam para encandear os transeuntes de porte arredondado.

A circulação tornara-se de tal modo difícil que, certo dia, alguém decidiu colocar bancas naquele parque onde cada um devia exibir as suas palavras. Os interessados procurariam as palavras que melhor serviam os seus desígnios. Ainda houve quem alimentasse uma certa esperança, mas todas as palavras continuaram a ter muita saída.

JMG

Parque